Times past

Neste momento o tempo avança sem mesmo que eu me aperceba. os dias vão passando e por vezes apreciamos certos momentos ,  noutros vamos avançando tão naturalmente como respiramos, algo natural e que já nem reparamos. neste momento, o passado são memórias distantes mas boas, que criaram uma nostalgia de sentimentos e experiências que tememos não voltar a ter. O amor, o riso, a leveza que existiram numa infância adulta. “E agora?”, esta é a pergunta que me tem assombrado a mente. Até podia ser algo bom, quando de repente sentimos que podemos fazer tudo, mas ao mesmo tempo todas essas possibilidades do mundo tornam-se um peso assombroso que ameaça soterrar-nos de ideias e desejos por concretizar. De repente o mundo sufoca-nos e o sentimento de implosão é iminente. O sentir que finalmente conseguimos algo significativo na vida, que deveria fazer toda a diferença, mas faz e não faz, porque nos faz questionar “e agora?”. Ter sonhos e atingi-los é algo que nos parece idílico, até que nos deparamos com a falta deles, de algo significativo que nos faz avançar que nos leva a ultrapassar questões, dúvidas e obstáculos tão maiores do que a multiplicidade de opções com que nos deparamos mas que não têm a mesma magnitude, que aquele objectivo que nos definiu durante grande parte da vida, sempre teve. “E agora?”… o vazio associado a esta questão precisa ser preenchido com algo igualmente relevante, porque a loucura espreita por detrás da questão associada ao pensamento seguinte: “mas afinal o que faço aqui?” e todos os pensamentos similares que se seguem. São possivelmente questões de uma mente vazia de preocupações práticas e que se enche do ser filosófico da vida e que estão perto da loucura a que a falta de resposta pode conduzir.

o agora

Abril de 2016…

Foi em outubro do ano passado que com ainda 34 anos encontrei finalmente o emprego que me irá permitir viver e não apenas sobreviver. Mas até este momento a minha mente continua a duvidar da realidade e manifesta essa dúvida com uma espécie de insatisfação que não me larga. Trabalho na minha área de uma forma que nunca seria possível em Portugal, tenho o reconhecimento devido e sinto-me motivada profissionalmente e pelo menos esforço-me para manter o entusiasmo. Não é fácil longe dos que nos compreendem tão bem. Não é fácil sozinha. E fico perdida no meio do tanto que ainda tenho para viver, para descobrir, para conhecer. Não quero sucumbir a uma vida de rotina, à acomodação ao que é confortável e seguro. A minha sede de aprendizagem é tanta que não sei bem por onde começar. E após tantos anos a viver a contar cada cêntimo, a minha mente ainda joga com uma culpa psicológica de cada vez que cometo o impulso de arriscar algo fora dessa mesma rotina.

o tempo

O tempo insiste em manter-se nublado, com alguns momentos de sol que eu aproveito para me perder a fotografar pela cidade. Entretenho-me a olhar e a ver o que se passa à minha volta, em todas as coisas que mudaram, em tudo o que ainda pode vir a acontecer. É engraçado como aos 34 anos falo dos meus 20’s como se de uma grande aventura se tivesse tratado. E na verdade acho que apesar dos momentos menos bons, o que ficou desse período, foram mesmo uma série de aventuras com direito a romance e intriga e pessoas mais ou menos relevantes. E quero chegar aos 40 pensar o mesmo dos meus 30. Tenho uma boa vida social, conheço pessoas, tenho conversas engraçadas, riu-me e se por vezes me sinto sozinha no meio do riso, isso é algo que sempre me acompanhou e posso simplesmente optar por lhe dar o verdadeiro pouco valor que tem. Posso escolher relembrar as situações caricatas e divertidas que acontecem no dia-a-dia. Porque por vezes o não viver numa eterna tristeza também resulta da nossa vontade.

Não me sinto minimamente adulta, nunca senti, acho que continuo a ser a menina da minha avó. Sempre fui responsável e nunca foi essa a questão, mas é o ter responsabilidades o que nos define como adultos? O que é ser adulto?

Por vezes parece que nem sei muito como cheguei aqui. Sei que tudo se processou numa série de acontecimentos sucessivos e tomadas de decisão no momento, e de anos a passar, mas já aprendi que na realidade nos não temos nada definido nem determinado. Antes de chegar aos 26 anos sempre achei que essa seria a idade em que eu gostaria de ser mãe, mas agora que olho para trás, nem sequer me lembro do que aconteceu durante o ano dos meus 26. E tenho a nítida sensação que ser mãe não poderia estar mais longe do meu pensamento nessa altura. E se por um lado a vida e as minhas escolhas me conduziram ao dia de hoje, não quero passar os anos sem aproveitar o que a vida tem para me dar, não me quero anular ou acomodar. Aproveitar para viver o que existe para viver na altura e se neste momento isso passa por sair à noite e me divertir, então porque não?

34

34 anos = 408 meses = 1 774,03354 semanas = 12 418,2348 dias = 298 037,634 horas = 17 882 258,1 minutos = 1,07293548 × 109 segundos, de acordo com o Google, que nunca se engana (not) e por isso vale o que vale. Visto assim são muitas contas e muitos números no que parece ser uma longa vida de 34 anos e por isso mesmo não tão longa assim.

Mas o curioso disto tudo é como a nossa memória funciona ao esquecer o dia-a-dia dos dias que passaram, ao lembrar apenas alguns cheiros, fragmentos ou sentimentos num conjunto de imagens que parecem remeter a uma outra vida. E começamos a pensar onde a vida se foi e onde nos levou. Pensamos nas pessoas que por ela passaram, em como foram tão importantes em determinados momentos para anos depois não existir qualquer tipo de relação. Não existe tristeza nestes pensamentos, apenas surpresa, em perceber como nós conseguimos ultrapassar momentos bons e maus, recuperar de situações, criar novos sonhos e viver. E no fim disto tudo é claro que existe a nostalgia sobre uma infância que ficou para trás e a inocência sobre o mundo e a vida que se perdeu e por momentos se deseja de volta.

O dia vai ser passado com uma tradição sueca que eu adoro e implica sauna e banhos no mar em pelota seguidos de massagem e brunch neste fantastico sítio no meio do mar. Faltam-me as minhas pessoas favoritas, mas a parte boa de mudar a vida é a possibilidade de conhecer novas pessoas. Corremos o risco e algumas ficam para trás, mas outras vale a pena conhecer. Quem sabe um dia não possam vir a fazer parte dessa lista limitada que são as minhas pessoas.

 

Juizos de valor

Se há coisa que não suporto são pessoas que se entretém a tecer juízos de valor e a dar sentenças sobre a vida das outras pessoas. Tenho ainda menos paciência quanto tentam fazer isso comigo. Desde o dizerem-me como devo gastar o meu dinheiro (na altura motivo suficiente para terminar um relacionamento tremido) ou como tratar o meu corpo de acordo com os respectivos ideais de beleza, para os quais de resto me estou a borrifar! 

Eu não me sinto bem magra, também nunca quis ser magra e quando chego a um certo peso não quero emagrecer mais porque simplesmente não me identifico com aquele corpo (chegou a ser assunto de discussão com o meu personalidade trainer quando ainda em Portugal). Mas aparentemente este é um tipo de pensamento completamente irracional! 

Sempre fui saudável, sempre tive o mínimo de cuidado com a minha saúde, sempre fiz exames regulares, e sempre gostei do meu corpo, algo que sei ser difícil para a maioria das mulheres, independentemente de serem mais magras ou mais gordas que o dito padrão de beleza dos dias de hoje. 

Nós somos realmente as nossas maiores críticas. Por uma mentalidade instituída, dirão uns ou pelas pressões da sociedade dirão outros, mas a esta altura do campeonato será que ja não era altura de nos deixarmos de coisas tristes e medíocres contra nós próprias?  

Rotinas

2015-03-02 09.04.47-2Passamos a maioria dos dias numa rotina de casa-trabalho – trabalho-casa à espera que regressem os dias de sol. Pelo meio, temos os fins-de-semana, com festas em casa de desconhecidos, conversas sobre o tudo e o nada, imagens que se apanham na evolução do dia. Cruzamo-nos com pessoas todos os dias, mas do conjunto apenas nos interessam realmente, talvez uma mão cheia delas. Encontramos pessoas com quem acabamos por ter diferentes tipos de relações. Amizades em que confiamos o tudo, amizades que nos fazem rir mas não estão interessadas em nos ouvir, amores reais ou apenas um gostar físico, até mesmo o toque do outro para fugir da solidão. Tentamos alcançar um equilíbrio, uma calma, sem cair numa rotina apática em que perdemos a capacidade de apreciar o inesperado, de seguir os impulsos, de impor limites à espontaneidade. E é nesse limbo que nos esquecemos de viver. Mas quando algo nos desperta, tudo parece ter um significado mais elevado, mesmo que seja apenas aos nossos olhos. Sabe bem fechar os olhos e dormir, mas às vezes também é bom acordar.

memórias

A nossa mente é perigosa, por vezes parece um miúdo traquinas que gosta de nos pregar partidas ou uma menina mimada que bate o pé e insiste naquilo que nos martiriza. Quando a nossa mente insiste em recordar certos momentos ou memórias que nos recordam sentimentos, podemos ter vários resultados. Mas por algum motivo ela insiste em recordar memórias de uma passado em que os sentimentos mais fortes se manifestaram, para bem e para o mal. Camões “elogiava” o passado nos seus sonetos. E realmente, raramente estamos contentes com o presente. A nostalgia é algo que assombra o ser humano (principalmente se é português). O sofrer por amor, associado à nostalgia é algo que nos atormenta e que resiste a todas a tentativas de optimismo ou distracção. E não acredito na teoria do novo amor para resolver o último, até porque raramente chega a ser amor, é quando muito uma distracção e vale o que vale.

Mas então qual é a solução? Claro que não existe! Pelo menos não imediata. O tempo e vida encarregam-se de dar um novo significado às memórias e aos sentimentos associados a essas memórias. Mas enquanto isso não acontece…

respira

2015-02-28 14.21.242015-02-28 14.28.29-1Ontem voltei a passear numa cidade. Desta vez não pelas colinas de Lisboa, ou o meu passeio mais frequente, em que descia a Avenida da Liberdade ou a rua de S. José até às Portas de Sto Antão, em direcção ao Chiado ou Príncipe Real para acabar na maioria das vezes no Cais das Colunas. Sempre o Tejo.

2015-02-28 16.09.432015-02-28 16.49.22Ontem voltei a passear numa cidade, mas não foi Lisboa, foi Malmö. A cidade onde me encontro agora e onde, como todas as outras por onde passei antes, vou aprender a gostar e a apreciar as imagens que ela me pode oferecer. Afinal de contas, os momentos também são imagens e é deles e delas que vive o homem…e a mulher.

Comecei o meu passeio na Biblioteca Municipal de Malmö pelo Parque do Castelo em direcção aos museus que existem no Castelo de Malmö, passei pelo Parque do Rei e depois da praça Gustaf Adolph acabei por me sentar na que eu considero ser a melhor pastelaria de Malmö, a Hollandia.

Muitos dos meus passeios foram feitos sozinha ao meu ritmo, o que significa muitas paragens para fotografias. Este não foi diferente, mas por algum motivo que ainda não consegui definir, senti-o diferente.  Seja porque foi o interlúdio de um inverno escuro em mais do que um sentido, seja porque foi a minha aceitação da cidade, embora já esteja a viver cá à quase um ano. Não sei, mas também não interessa. Interessa apenas a paz que senti enquanto andava e olhava à minha volta e respirava fundo. Lembro-me que também foi assim com Faro e Lisboa. Foi quando me comecei a perder nestas cidades que as comecei a ver. Os pormenores de cada rua, os detalhes de um edifício, a intermitência da luz do sol pelas folhas das árvores de um jardim. Todas as cidades têm a sua beleza. Resta saber onde a procurar, abrir os olhos e ver. Mesmo que seja através de uma lente de telemóvel.

um dia

9:00 casa 20ºC

Lá fora o sol brilha e a temperatura do dia vai variar entre minima de 3ºC e máxima 4ºC.

9:30 autocarro 20ºC

Homem a por creme nas mãos, o frio não perdoa o mais rijo dos homens. As pessoas a passear dividem-se entre as que passeiam os filhos nos carrinhos de bebés e as que passeiam os cães. É ilegal manter um cão em casa por mais de 8 horas sem o levar à rua para exercício e higiene. Não sei se se aplica a mesma regra no caso dos bebés.

10:15 Arbetsförmedlingen 20ºC

Reunião de esclarecimento sobre um programa do centro de emprego sueco que consiste em cumprir certos requisitos de procura de emprego, de resto já cumpridas em pleno por mim , mas agora vou passar a receber dinheiro por isso. Ok!

11:30 Folkuniversitet 20ºC

Aula de Svenska för Entreprenörer (=sueco para empreendedores) em que falamos em sueco sobre empreendedorismo e a complicada burocracia sueca.

13:00 Max 20ºC

Um tipo de McDonald mas melhor e com direito a chantagem emocional de um mendigo roma, população que tem vindo a investir na cidades suecas em termos de pedir dinheiro.

13:32 Comboio 20ºC

Viagem de 15 min até Lund , a Coimbra aqui do sitio, mas a nossa Coimbra é bem mais bonita.

14:00 Biblioteca 20ºC

Catalogar livros, perceber linguagem de parametrização de sistemas open acess, atender pessoas, fazer pesquisas, responder a mails e agendar reuniões.

17:00 Comboio 20ºC

Viagem de regresso a Malmö em que todos vão a olhar para os telemóveis, não vá um olhar distraído calhar noutro olhar distraído tornando impossível evitar o constrangimento do contacto humano.

17:30 Autocarro 20ºC

População geral a regressar a casa, pelo meio comprar o jantar das 18h, porque a maioria não cozinha e vive à base de saladas. Não sou fã de saladas e após 2 anos a viver aqui, continuo a não ser fã.

18:00 Casa 20ºC

Ver a correspondência, organizar os papéis das reuniões, preparar o dia de amanhã e aproveitar para relaxar a ver as minhas séries preferidas ou na conversa com a minha senhoria, em sueco sobre coisas suecas.

Até porque o meu dia foi passado na Suécia e não em Portugal.

Ano da cabra e das pessoas

O ano chinês da cabra começou a 19 de fevereiro. Entre previsões e relações, o que eu sei é que a vida me tem influenciado de várias formas. Uma delas é o desenvolvimento de um grande cepticismo sobre o ser humano, o que associado a uma incapacidade de filtrar as palavras que me saem da boca, resulta numa expressão de opinião repetidamente cínica e possivelmente tornando-me aos olhos dos outros uma cabra.

Uma das características que eu admiro nos suecos como povo é a capacidade de acreditarem no melhor das pessoas, acreditarem que todos merecem a oportunidade de transformarem a vida ou de se desenvolverem enquanto ser humano. Por mais que gostasse de acreditar nessa ideia, mantenho a minha cabrice, pelo menos nesse aspecto. Temos dificuldade em mudar por iniciativa própria e mesmo quando condicionados por situações ou limitações, procuramos o que nos é familiar e que de certa forma nos conforta e dá confiança suficiente para avançarmos com o dia a dia, ou com um projecto ou com um relacionamento.

Por mim continuo a preferir ver as pessoas como um todo, virtudes sim, mas ao identificar os defeitos fica mais fácil estabelecer um relacionamento sem ilusões ou expectativas que seriam futuramente não correspondidas. E uma vez que me é dificil conter opiniões e perspectivas sobre o que observo das outras pessoa, parece que neste ano da cabra as minhas palavras vão fazer ainda mais sentido. Ou não.